A presença moura no Brasil, segundo Gilberto Freye

February 3, 2018

Oi, pessoal. Estou muito feliz com o retorno que estou recebendo das pessoas que começaram a acompanhar os posts aqui no blog da página Presença Árabe no Brasil. Agradeço a vocês por dedicarem alguns minutinhos de vez em quando para lerem o que tenho escrito por aqui! 

 

Como eu havia comentado há alguns dias, gostaria de aproveitar essas publicações para trazer parte do conteúdo da minha tese de doutorado, exemplificando um pouco mais a questão de como vejo a influência da cultura árabe na nossa sociedade, seja pela via da imigração, seja pela herança ibérica, pois os árabes também viajaram, segundo Gilberto Freyre e Câmara Cascudo, na memória do "colonizador" e para cá vieram ainda no século XV. Em outras palavras, falar sobre a presença árabe no Brasil é ir muito além de censos e registros de fluxo migratório. 

 

O ponto de partida de nossos vínculos é anterior ao estabelecimento de relações diplomáticas entre Brasil e Egito, ou às viagens do imperador Dom Pedro II ao Líbano. Suas origens situam-se mesmo antes do fluxo migratório de sírios e libaneses desde as últimas décadas do século XIX. Na verdade, a mentalidade, a arte, a técnica e a cultura material árabes estão presentes desde a gênese ibérica do Brasil colônia.

(CHOHFI, 2000)

 

E ainda:


Para o Brasil é provável que tenham vindo, entre os primeiros povoadores, numerosos indivíduos de origem moura e moçárabes, junto com cristãos-novos e portugueses velhos. (FREYRE, 2003)


No período das grandes navegações, o Novo Mundo assimilou parte da cultura árabe que havia sido trazida pelos espanhóis e portugueses, e hoje a sua influência é visível em traços do cotidiano. O café, por exemplo, foi introduzido pelos árabes na Europa, assim como o cultivo do arroz, alimento tipicamente chinês, mas que conquistou o resto do mundo pelos árabes. Igualmente na arquitetura, é possível encontrar traços da cultura árabe trazida pelos ibéricos no uso dos azulejos decorativos, no chafariz, nos pátios floridos e nos detalhes em arabescos. 

 

Na foto abaixo, enviada pela arquiteta Patrícia Assreuy como colaboração à primeira etapa da coleta de dados para a minha pesquisa, vemos um exemplo de como os muxarabiês influenciaram nossa arquitetura. Atualmente, os cobogós são presença constante em detalhes decorativos e em diversas construções.

 

 

Truzzi (2007), em artigo sobre a presença árabe na América do Sul, lembra que ela já era realidade neste continente muito antes da imigração inaugurada ao final do século XIX. Segundo ele e outros pesquisadores, no Brasil, ela já se insinuava por meio de vínculos religiosos, ocasionada pelos africanos muçulmanos malês na Bahia escrava desde o século XVIII   (RIBEIRO, 2011). E ainda, antes disso, também pode ser identificada tal influência à época do início da colonização portuguesa tanto na língua, quanto na música, culinária, decoração e vestuário, para citar alguns exemplos. 


Seja por sua profunda influência em Portugal, seja pela forte imigração no último século, a cultura árabe tem presença garantida na história e na sociedade brasileiras. Junto com os colonizadores, no século XVI, desembarcaram heranças de sua língua, música, culinária, arquitetura e decoração, técnicas agrícolas e de irrigação, farmacologia e medicina. É que os árabes dominaram por quase oito séculos a Península Ibérica. Significativamente, Granada, seu último reduto em solo europeu, foi conquistada pelos cristãos em 1492, mesmo ano em que Colombo chegava à América. (TRUZZI, 2009)
 

Em seus argumentos, Truzzi inevitavelmente remete o leitor a Gilberto Freyre, que, em 1933 ao publicar Casa Grande & Senzala, sinalizou para a importância do contato entre os portugueses e mouros durante a Idade Média, o que teria sido fundamental para que os lusitanos realizassem com sucesso a empreitada das grandes navegações. 

 

Em uma direção semelhante, ao publicar em 1936, Sobrados e Mucambos, Freyre deu sequência ao desenvolvimento de ideias apresentadas anteriormente, sobre o embate entre o Ocidente e o Oriente, no Brasil, durante o século XIX, mantendo sempre o argumento de que a cultura brasileira teria sido gerada a partir de uma matriz oriental de valores, hábitos e conceitos sobre o mundo. Em outras palavras, em sua obra é possível identificar um pensamento acerca de uma orientalidade e de um amouriscamento do Brasil.


A obra de Freyre permite reunir um conjunto de informações sobre como esta presença moura persistiu na vida íntima do brasileiro desde os tempos coloniais até os dias de hoje, a partir de sua permanência na Península Ibérica.


Através desse elemento moçárabe é que tantos traços da cultura moura e mourisca se transmitiram ao Brasil. Traços de cultura moral e material. [...] Diversos outros valores materiais, absorvidos de cultura moura ou árabe pelos portugueses, transmitiram-se ao Brasil: a arte do azulejo que tanto relevo tomou em nossas igrejas, conventos, residências, banheiros, bicas e chafarizes; a telha mourisca; a janela quadriculada ou xadrez; a gelosia ; o abalcoado; as paredes grossas. Também o conhecimento de vários quitutes e processos culinários; certo gosto pelas comidas oleosas, gordas, ricas em açúcar. O cuscuz, hoje tão brasileiro, é de origem africana. (FREYRE, 2003)

 

Na foto abaixo, enviada por Ana Elisa Estrela como colaboração à primeira etapa da coleta de dados para a minha pesquisa, vemos um pacote de alfenim, um doce feito açúcar de cana de origem notoriamente árabe, cuja tradição chegou ao Brasil pelos portugueses.

 
Esses e outros exemplos nos remetem a elementos que se manifestaram repetidas vezes nas fotografias recebidas no âmbito do projeto Presença Árabe no Brasil em Imagens em 2011. Mais sobre o resultado dessa pesquisa pode ser acessado na minha tese de doutorado "Alimentação, memórias e identidades árabes no Brasil", disponível para consulta no Repositório da UnB. Gostaria de lembrar que este texto não pode ser reproduzido sem que a fonte correta seja citada. 

 

No próximo post, falaremos mais um pouquinho sobre essa chamada "presença moura" na cultura brasileira, porém, sob a ótica de outro importante intelectual brasileiro, Câmara Cascudo. 

 

Patrícia El-moor

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