Pequenas grandes confusões e alguns estereótipos (parte 1)

April 17, 2018

No Brasil, associar turcos e árabes tornou-se comum devido ao fato de que entre o final dos anos 1800 e no início dos 1900, muitos imigrantes oriundos de países como Síria e Líbano chegaram com passaportes do Império Otomano.

 

Como o Presidente da Associação Cultural Internacional Gibran, falecido em 2013, Mansour Chalita esclarece, após o Oriente Médio ter sido ocupado entre os séculos XII e XIII pelos turcomanos oriundos da Ásia, teve início o Império Otomano, que durou oito séculos ininterruptos, até o fim da Primeira Guerra Mundial.

 

A região conheceu um período de tirania e miséria e, em 1860, os turcos incitaram conflitos religiosos os quais culminaram com o massacre de muitos libaneses cristãos, o que fez com que muitos evacuassem a região montanhosa do Líbano,  de maioria cristã,  e que foi declarada zona autônoma do Monte Líbano. 

 

Ainda que, após a Primeira Guerra Mundial, o Império Otomano tenha visto as partes do seu território serem desmembradas, a República da Turquia ter sido fundada em 1923 e por meio de tratados como Sevres e Lausanne, as fronteiras daquela região tenham sido redefinidas, diversos países árabes que obtiveram sua independência naquela ocasião, logo em seguida se tornaram colônias de países europeus.

 

Ademais, por não haver uma vinda expressiva de turcos, não se observou um esforço em esclarecer esse equívoco. Ainda nos dias atuais é comum encontrar brasileiros que chamam árabes e, às vezes, também armênios e judeus, de turcos.     

 

 

Jorge Amado, em seu romance A Descoberta da América Pelos Turcos, escreveu: 


“Os primeiros árabes a aportar no Brasil traziam documentos do Império Turco-Otomano, de modo que eram chamados indistintamente de "turcos", fossem eles realmente turcos, libaneses ou sírios. [...] Os primeiros a chegar do Oriente Médio traziam papéis do Império Otomano, motivo por que até os dias atuais são rotulados de turcos, a boa nação turca, uma das muitas que amalgamadas compuseram e compõem a nação brasileira." (AMADO, 1994, p.26)

 

Merece menção ainda outra confusão clássica observada no Brasil ao se falar sobre os árabes, que é a associação com o Irã, em parte explicada pelo processo de expansão e retração da religião islâmica e consequentemente intercâmbio cultural experimentado ao longo dos séculos, haja vista que a antiga Pérsia também esteve sob domínio islâmico, mas também ao fato de que após a Revolução Islâmica de 1979, os conflitos políticos e religiosos nesse país passaram a ocupar posição de destaque no noticiário internacional, tendo evidenciado de forma bastante delicada, um conflito de valores que parecia se polarizar entre “Oriente” e “Ocidente”.  Mas este é assunto para a segunda parte do post...

 


Proibido a reprodução do texto sem a devida citação da autora, Patrícia El-moor. Extrato da tese "Alimentação, memória e identidades árabes no Brasil", disponível para leitura no Repositório da UnB. 

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