Lembranças do meu avô ou: O Líbano que paira sobre nossas cabeças (parte 1)

May 1, 2018

Em 1996, durante minha pesquisa para realização do meu trabalho de final de curso de graduação em sociologia na Universidade de Brasília, eu compilei uma série de entrevistas com imigrantes e descendentes de imigrantes árabes aqui na capital federal. Entre os entrevistados, guardo com imenso carinho o depoimento do meu avô, já falecido e de quem eu sinto enorme saudade. À época, sua entrevista foi incluída no meu trabalho e depois eu não voltei a ler aquela história tão marcante para nossa família. Hoje, 01 de maio, dia do trabalhador, eu resolvi buscar alguns trechos de depoimentos que gravei ao longo desses anos de estudos, pois queria fazer um post especial na página Presença Árabe no Brasil. Acabei optando com dividir com vocês a primeira parte da história do meu avô, João Baptista, de quem herdei o amor à cultura árabe, mais especificamente, a libanesa. 

 

Está expressamente proibida a reprodução sem consentimento da autora da página. Agradeço a compreensão.

 

Patrícia El-moor

 

Entrevista realizada com João Baptista El-moor em 1996 (Parte 1)

 

Tenho 69 anos. Nasci aqui no Brasil e, em princípio, fui educado numa família de libaneses autênticos, ainda que meus pais tenham se conhecido aqui e aqui, consequentemente, tenham se casado na Igreja Ortodoxa. Segundo tenho registros da família, minha mãe talvez, tenha chegado primeiro, por volta de 1902, ao Brasil, bem mais nova do que meu pai. Meu pai chegou já com 14 anos em 1908. Veio numa segunda vinda que meu avô fizera ao Brasil. Meu avô, segundo notícias e conversas em casa, teria vindo para o Brasil de uma forma interessante, em princípio, jovem, morando no Líbano, com sua mãe, ao que parece, viúva; bonachão, alegre, passeador e, provavelmente, namorador...o que fez com que minha avó sugerisse que ele procurasse uma moça e que deveria casar-se de brincadeira com ela. Ele, na época, disse: “como? não tenho nada!” Ela apanhou uma panela grande, que tinha ao lado e disse: “comece com seu enxoval aqui!”. A verdade é que ele, realmente, estimulado pela mãe, arranjou uma esposa - pelo visto, muito boa. Começou a trabalhar e continuou a trabalhar, ao que me parece, como mascate pelo próprio Líbano. Mas era apaixonado por terra, queria ter uma propriedadezinha, e os recursos eram poucos...Foi juntando suas economias e acabou comprando uma beirada de pedreira, como dizia. Todos riam dele: “O que você vai fazer com terra tão pedregosa?” Ele disse “Ah! Não faz mal, comprei barato, é minha! Eu quero ter minha terra!” E aos fins de semana, os momentos de folga do seu trabalho comum, de mercadante, por ali, ele arranjava a ajuda de um serviçal e ia tirando as pedras e as empilhando, lateralmente, formando talhas de terra, sobrando no meio uma terra cultivável. Provavelmente, por não ter sido plantada há muito tempo, por causa das pedras, armazenava um bom húmus e formou uma das propriedades mais lindas e produtivas da região. Com seu trabalho, com a sua dedicação, adquiriu recursos e não pretendia sair do Líbano. Essa propriedade era em Dumah. Acontece que em uma de suas viagens, ele presenciou um crime e acabou tendo que testemunhá-lo. Em conseqüência, começou a sofrer perseguições e ameaças de morte. Até que um determinado momento sentiu necessidade de fugir realmente. Como o problema era exclusivamente com ele, não envolvia sua família e ele dispunha de um recurso, apenas ele saiu e dirigiu-se para os Estados Unidos, onde  tinha um parente (a família: a esposa, os filhos estavam bem ajustados no Líbano). Esperava organizar a sua vida na América do Norte, já que havia naquela época, uma corrente migratória muito grande. A preocupação americana fez com que ele passasse numa junta médica, estabelecida na Espanha pelos americanos, para fazerem uma seleção. Ao preparar aquele terreno e fazer seus plantios e tratos culturais, ao podar uma das árvores, ele cortou o dedo mindinho, da mão esquerda. A junta médica americana entendeu que ele era um mutilado. Estavam fazendo uma seleção rigorosa, evitando a migração e ele, então, ainda na Espanha, ficou sem saber pra onde ir. Lembrou-se de alguém conhecido ou qualquer coisa assim, ou qualquer coisa o atraiu para a Argentina. Comprou uma passagem num navio e dirigiu-se para a Argentina. Navio esse que trazia um grupo de libaneses já residentes no Brasil, que tinham voltado à terra a passeio, estavam retornando e o animaram com o Brasil e não com a Argentina. Talvez, talvez não, com toda certeza, entusiasmado por este grupo e já ao qual ele se integrou, ele desembarcou com eles no Rio - acredito, levado por estes patrícios, se localizou na Zona da Mata, na fronteira de Minas com o estado do Rio, no lado mais próximo de Minas. Foi nessa região, que com os recursos que ele trouxe, ele conseguiu comprar uma fazenda produtiva, ainda de café. Ainda que o café estivesse numa fase já de início de decadência no Vale do Paraíba, ainda ele era muito produtivo. Nas fazendas tinha café, milho, feijão, muita fartura, muita coisa, e ele ficou empolgado com a região. Mas o seu sangue libanês, naturalmente, fez com que ele fundasse um pequeno negócio, um armazém, na própria propriedade e que servia os colonos, como também aos vizinhos. Ia fazendo o negocinho de um bom patrício, e ao mesmo tempo, desenvolvendo a sua propriedade que ele tanto amava pelo trabalho da terra. Alguns anos depois, teve notícia de que a pessoa que o perseguia no Líbano havia falecido, e ele entendeu que  com as coisas, mais calmas, era o melhor momento dele retornar e trazer a família para o Brasil, já que ele estava encantado com isso aqui. Foi. Chegou lá, encontrou a esposa já idosa, como ele também o era; ela argumentou que não tinha razão de sair do Líbano, onde tinha seus filhos, tava criando os meninos, e a vida organizada, morava numa propriedade boa. Pra que se aventurar? Ele sentiu, digamos, assim, o coração dividido, mas entendeu o argumento da esposa. “Então eu vou ter voltar, terei que vender a terra....o que vou fazer?” Ela disse: “Você volte e venda essa propriedade”. Então ele respondeu: “Ah, eu acho que vou levar um dos meus filhos em minha companhia, o mais velho, o Nicolau, e com isso pode ser que ele se entusiasme pelo Brasil, ou pelo menos, ele dê um passeio por lá. E veio com o meu pai, ainda com 14 anos, em 1908. Chegando aqui, meu pai e meu próprio avô se entusiasmaram também pela abundância e a fartura das coisas no Brasil. Mas, dois anos depois, o meu avô efetivamente decidiu-se a retornar e compreendeu que o meu pai, já com 16 anos, já era um homem, sabia administrar bem a propriedade e externara muito interesse em ficar...Meu avô saudoso da terra, da família, deu a maioridade ao meu pai e ele assumiu toda a administração dessa propriedade, enquanto me avô retornou. Ao chegar ao Líbano, talvez já pressentindo, né, o fim de vida...ele não demorou muito e faleceu. Veio a falecer, exatamente como dizia meu pai, debaixo de uma das arvorezinhas que ele plantara de frutas. Passeando pela manhã, deitou-se e entrou no sono eterno à sombra de suas próprias plantações. Essa propriedade lá no Líbano era muito produtiva e de frutos muito bons. Meu pai, ao lembrar-se de seus primeiros anos de vida no Líbano, e desses frutos maravilhosos que tinham lá...e principalmente dos figos, vinha água na boca e nos próprios olhos...de saudade da terra. Mas, apaixonado pelo Brasil, aqui foi tocando a sua vida.

 

Continua...

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