Lembranças do meu avô ou: O Líbano que paira sobre nossas cabeças (parte 2)

May 9, 2018

Esta é a segunda parte da entrevista concedida pelo meu avô, João Baptista El-moor, a mim em 1996, época em que eu coletava histórias de vida para a minha monografia de final de curso em sociologia, cujo tema tratava da imigração árabe no Brasil. A terceira e última parte será publicada em breve. Espero que gostem! 

 

A primeira parte pode ser acessada aqui no blog. Aproveito para lembrar que a reprodução desta entrevista não pode ser realizada sem prévia autorização da autora da página.

 

Segunda parte da entrevista com João Baptista El-moor....

 

Sentindo o progresso material, meu pai soube que a propriedade efetivamente seria dos herdeiros... Ele chamou o seu segundo irmão para que viesse para o Brasil ser seu sócio e para começar a desenvolver os negócios que o pai deixara. Meu tio, ainda que mais novo que meu pai, já havia entendido que só viria casado, pois era noivo no Líbano. Então, casou-se e veio para o Brasil. Meu pai compreendeu que, como comerciante, morava numa casa grande, e, portanto, caberia casar-se também para poder os dois irmãos habitarem o mesmo teto, já que os negócios eram contínuos à residência. E resolveu então, casar-se.

 

Provavelmente, pelo que me parece, depois da vinda do meu avô; dois outros irmãos dele teriam vindo para essa região. Acontece que esses tios do meu pai viveram um pouco isolados mas tinham ainda um relacionamento com meu pai; e um deles conhecia uma família no Rio, de libaneses e disse que tinha umas moças bonitas por lá e que poderia levar meu pai e apresentá-lo...apresentá-las a meu pai. E numa das idas de negócio, lá se foram os dois, o tio e o sobrinho, à residência de quem veio a ser minha avó depois. Minha avó teve uma vinda para o Brasil um pouco diferente. Veio com um irmão mais velho, ela era casada, o irmão mais velho casado e com os pais...os pais já idosos, e outros...Acontece que o líder desse grupo, da família da minha avó seria o tio, isto é, o irmão mais velho da minha mãe, que dispunha de certo discernimento, maior experiência e algum provável capital... e se estabeleceram na Gávea e em Botafogo. Minha mãe morava em Botafogo, novinha...desde menina, ela veio com dois anos para cá, tornou-se uma efetiva carioca, falando muito bem o português e o árabe dentro de casa. Mas o meu avô materno, isto é, pai da minha mãe, não se ajustou bem ao Brasil e não quis ficar... começou  a trabalhar, inclusive com a fabricação de doces libaneses, enfim... Mas não se ajustou bem e acabou entrando numa fase de decadência, bebendo e tendo dificuldade na vida...

 

Enquanto isso, quem teve de assumir a liderança da família foi a minha avó materna. Ela tinha um armarinho e nos fundos desse estabelecimento, ela ainda tinha uma fábrica de colchões, na rua Bambino, no Rio de Janeiro, em Botafogo...Nesta oportunidade, minha mãe veio a conhecer meu pai, que foi apresentado à família da minha avó. E eles se interessaram um pelo outro. Meu pai dizia que estava um dia muito quente, no dia desta visita, e ele pediu um como d’água, minha mãe trouxera um copo tão bem lavado... e a água com um aspecto tão bom, que ele satisfez com muito gosto... e dali saiu o relacionamento, e em pouco tempo, o meu pai veio a casar-se. De modo que um dos meus tios, meu tio Simão, irmão do meu pai quando chegou do Líbano, já era casado e esperava a primeira filha. Meu pai então também se casou e esperou o primeiro filho, que no caso também foi uma menina. Meu pai e meu irmão residiram muitos anos já em Sapucaia, porque meu pai se estabeleceu ali, no Estado do Rio, do outro lado do Rio Paraíba. Isso se deu porque em uma das idas àquela região, eles foram à casa de comércio de um patrício, de dois irmãos patrícios, e eles estavam brigando, querendo dissolver a sociedade. Meu pai, para desapartar a briga, acabou ficando com o negócio dos dois, transferiu-se lá pra Fazenda da Pedra Negra e mudou-se para o estado do Rio, em Sapucaia, onde desenvolveu os negócios de atacado e varejo, de secos e molhados, enfim, de ferragens de todas aquelas casas características comerciais que vendia de tudo, desde perfume barato a perfumes franceses e também roupas, ternos, roupas de casamento, ferragens e, porque não, até material funerário.

 

Esse negócio se desenvolveu e os dois irmãos do meu pai, bem como o meu pai, foram organizando a sua vida, tendo seus filhos... em síntese, já tinha cada um cinco ou seis filhos. Os dois irmãos (meu pai e meu tio) moravam junto, com muito amor, muita fraternidade... as duas esposas, a tia Borbora, libanesa, já vinda mais tarde, e a mamãe, libanesa também, filha de libaneses, vinda mais moça... elas se ajustaram perfeitamente. Os filhos eram das duas. As duas que nos cuidavam. A cozinha era uma só, lembro-me perfeitamente a gente criança brincando na cozinha.. tinha sempre umas guloseimas pra saborearmos... A família cresceu e eles sentiram a necessidade de mudar. Meu pai comprou outra casa e minha tia ficou na sede antiga... meu pai mudou-se. Os dois tiveram uma família muito numerosa. Meu pai teve doze filhos, seis homens e seis mulheres. E a tia teve dez, cinco homens e cinco mulheres. As crianças iam nascendo paralelamente umas às outras de modo que a fraternidade entre os filhos era muito grande. Assim, nos acostumamos e assim nos estimamos até hoje, ainda que separados pelos problemas da vida... Assim, eu diria, que a força de um povo, a sua cultura, os seus hábitos, a sua religião, os aproxima. Semelhantes procuram semelhantes... Desta maneira, meu pai procurou uma patrícia. Meu tio quis vir com sua esposa, aqui se moldaram às condições do Brasil, lá frequentavam a Igreja Ortodoxa, católica ortodoxa. Aqui, em razão da ausência da Igreja Ortodoxa no interior, adotaram a fé católica romana. Mas, os primeiros filhos, até a metade, das duas famílias foram batizados no rito ortodoxo. Meu pai convidava o padre do Rio de Janeiro, da Igreja de São Nicolau, e ele ia, fazia um passeio pelo interior e aproveitava e batizava todos nós. Eu, por exemplo, sou filho do meio e fui ainda batizado na Igreja Ortodoxa, mas creio que minha irmã mais nova que eu já teria sido batizada na Igreja Romana. O mesmo aconteceu com meus primos. Mas, guardamos no coração sempre essa lembrança. O princípio de fé que nossa família teve no Líbano perdurou e perdura até hoje em nossos familiares.

 

Uma coisa muito marcante na vida de meu pai, foi o hábito de levantar muito cedo, tomar um banho frio, como era o gosto dele, que é a simplicidade de um patrício. Ele abria a janela e pegava um livro, em árabe, de orações e fazia suas orações em voz alta na janela, com as primeiras luzes do dia. Muito arrumadinho, cabelo penteado, muito zeloso, uma atitude muito bonita que me guarda na lembrança... Nós crianças, acordávamos com aquela ladainha. Pelo fato da minha mãe ter vindo muito cedo para o Brasil, e ter aprendido o árabe em escola, a linguagem árabe era restrita mais a diálogos mais íntimos entre eles, para que as crianças não viessem a saber o que estavam falando. Mas nessas orações em árabe pela manhã, nós distinguíamos perfeitamente o nome de nossa mãe, ao que me parece, ele reportava-se à ela e pedia proteção naturalmente pra ela e para a família. Isso nos marcou profundamente e, em síntese, vivemos alimentados por aquele espírito forte de família, pela tradição na comida árabe, que as cunhadas faziam muito bem... Lembro-me muito bem, de quando eu era criança, a minha tia Borbora fazendo aquele pão aberto de uma folha apenas, estendido sobre os braços, em que ela revestia de farinha e ia abrindo o pão e assava no fundo de uma assadeira de papel antiga, um tacho de papel antigo.

 

Continua... 

 

 

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