Lembranças do meu avô ou: O Líbano que paira sobre nossas cabeças (parte 3)

June 14, 2018

Esta é a terceira e última parte da entrevista que tive a honra de fazer com meu avô, em 1996, durante minha pesquisa para finalização do meu curso de graduação em sociologia, cujo trabalho final tratava sobre a imigração sírio-libanesa para o Brasil. Na ocasião, meu avô, que ainda era vivo, contou a história de sua família, a qual, mesmo passados tantos anos, segue me emocionando e enchendo o coração de saudade. Espero que gostem.

 

Quem não teve a oportunidade de ler as parte anteriores, pode acessá-las navegando pelo blog. Aproveito para lembrar que a reprodução desta entrevista não pode ser realizada sem prévia autorização da autora da página.

 

 Terceira parte da entrevista com João Baptista El-moor....

 

Também vim a ser educado mais tarde por circunstâncias da vida, por um casal, amigos de meu pai, que não eram libaneses, eram gaúchos, mas que, por circunstâncias, me acolheram para facilitar a educação em outra cidade. Casal que eu até hoje prezo e reconheço o valor que me deram e constituíram. Eu nunca vou me esquecer deles. Acontece que fui para o Rio, passeei, estudei, tornei-me adolescente na casa de gaúchos, mas sem esquecer o quibe, o tabule e aquela vida libanesa.

 

Mais tarde, pretendi casar e fui buscar uma esposa exatamente uma prima, filha também de libaneses, de um primo de minha mãe e que, apesar da mãe dela ser portuguesa, mas o pai era libanês, a menina aprendera na casa da família libanesa toda a arte culinária e a tradição da família libanesa. E eu fui encontrar nessa casa dessa prima, aquela mulher que me marcou, seja pela sua personalidade, mas reconheço também que um pouco da tradição libanesa me atraiu. Hoje, depois de ter vivido quarenta anos de um excelente matrimônio, ter criado meus filhos no mesmo espírito daquela família libanesa, amante do Brasil, como meu pai passou a ser, reconheço a força da nossa origem, modesta, mas profundamente associada aos problemas nacionais. 

 

Tenho no coração pela nossa terra um carinho muito especial. Minha mãe procedia de Amioun, meu pai, como disse Duma, vieram se conhecer aqui. Mas meu pai dizia, que Duma mais alto, num monte, ele percebia as luzes à noite da cidade de Amioum. Não pude ainda ir ao Líbano, as circunstâncias históricas que a envolveram durante tantos séculos, protegida pelo próprio Monte Líbano, as circunstâncias históricas que a envolveram durante tantos séculos, guardo essa alma alegre, sincera, corajosa e temente a Deus. Gostaria de conhecer Duma, se possível a propriedade que meu avô cuidara com tanto carinho e transformara aquela pedreira naquele pomar tão lindo, que enchia os olhos de lágrima do meu pai quando lembrava dos doces de figos que lá comia. De Amioum, não tenho lembranças... Tenho notícias que a família de Amioum, da minha esposa, os velhos árabes também tinham, e têm ainda a sua propriedade, onde ainda frutifica a velha oliveira, que viu nossos avós, pode-se dizer, nascerem, de tão velha já tá oca num determinado canto em que as crianças da família ainda brincam de esconder.

 

Há pouco tempo, tive notícias mais recentes de Amioum. Uma das tias da minha esposa, que a rigor também era prima da família Abdu, por coincidência, é brasileira, nascida no Rio, aonde a origem da família Abdu, dessa que nós pertencíamos, a minha esposa, o velho Jacob, retornou ao Líbano mais tarde, os filhos nascidos no Líbano, já rapazes, ficaram no Brasil  e os que tinham nascido no Brasil voltaram para o Líbano. Uma dessas tias de minha esposa, a tia Nasta, Nasta Raribi, passou a residir na propriedade com os pais que a família tinha, onde tem a tal oliveira e tornou-se efetivamente libanesa, porque lá tornou-se adulta, teve a educação própria e acabou sendo, vamos dizer, o centro da família no Líbano, por circunstâncias, ela veio passear no Brasil em 1970. Exatamente em 1970, ela veio num passeio e um trabalho que ela veio fazer aqui, ela resolveu batizar uma brasileira da família. Eu tinha a filha Laurinda, a minha caçula dos meus 6 filhos e ela aproveitou e batizou. Retornou ao Líbano, levando uma boa imagem do Brasil e, de vez em quando, se corresponde conosco.

 

Chamo a atenção pra um fato que também me marcou muito; é simples, mas são coisas que prendem a gente... ela trouxe doces feitos por ela, de frutos dessa propriedade em que ela residia e que os avós de minha esposa residiam no Líbano. Trouxe azeitonas, da tal oliveira, que é antiga e ainda frutifica. Trouxe o azeite, ainda virgem, puro, fabricado por ela mesma. Os doces, a azeitona, o azeite, tão presos à nossa tradição, marcou também como um pedaço do Líbano nos nossos dias quando ela nos deu o prazer de estar conosco. De vez em quando, ela nos escreve. Recentemente, tivemos notícias, inclusive vi um vídeo, em que ela diante da cidade de Amioum, foi congratulada, inclusive, com a presença da esposa do presidente do Líbano, por trabalhos filantrópicos a idosos, numa casa de assistência. Se não me falha a memória, a jovens também, mas fundamentalmente, uma instituição assistencial voltada a idosos, mas acredito também que tenha tido uma área de apoio à infância e adolescentes. Não sei bem os detalhes, mas foi uma cerimônia belíssima realizada em Amioum, em que tiveram presentes várias autoridades e, nós vimos pelo vídeo, que o Líbano já se expressa na modernidade, mas ainda guarda aquele espírito libanês, forte, carinhoso, firme nos seus propósitos de um país organizado, que tem uma tradição e que levou essa tradição para várias regiões do mundo, inclusive para o Brasil. Como disse, a minha esposa é procedente de libaneses e eu também, tenho muito orgulho dos meus filhos e eu também tenho muito orgulho dos meus netos trazerem não só no sangue, mas ainda na tradição da família alguma coisa do Líbano.

 

(João Baptista El-moor - entrevista concedida em 1996)

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